Festival termina com mesa sobre as utopias do nosso tempo


22 de julho de 2018 - 16h48

A última mesa da Tenda dos Pensadores do II Festival Internacional da Utopia reuniu a escritora Conceição Evaristo e o pastor Ariovaldo Ramos, da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, para falar sobre as utopias de nosso tempo. Além dos palestrantes, a mesa foi composta pelo prefeito de Maricá, Fabiano Horta e pelos secretários de Cultura, Andréa Cunha, de Participação Popular, Direitos Humanos e Mulher, João Carlos de Lima (Birigu), e de Economia Solidária, Diego Zeidan, com mediação de Joaquim Pinheiro da coordenação nacional do MST. O vereador de São Paulo Eduardo Suplicy se juntou à mesa. Ele participo de um debate no Acampamento da Juventude neste domingo (22).

Fotos: Thiago Lara / Divulgação Festival da Utopia

O prefeito de Maricá destacou que o Festival termina neste domingo (22), mas na alma e no coração a utopia presente em todos os quatro dias de evento não se encerra. “Os frutos do Festival da Utopia estão na dimensão do imensurável, enquanto matriz de uma geração futura, já que despertou muita gente de que a luta social é o que transforma a vida da cidade, do país e do mundo”, comentou.

Horta chamou a atenção para a mesa de encerramento que deixou um grande norte aos participantes. “Vozes como essas fazem a gente refundar a nossas utopias”, disse. Ele ainda ressaltou que a “dimensão universal da luta é um legado do festival”. “Nossa utopia é a luta, porque é na luta que construímos um Brasil melhor”, finalizou.

“Minha utopia hoje exige militância”

O pastor Ariovaldo Ramos iniciou sua fala destacando que o Festival da Utopia trazia em sua mesa de encerramento dois negros, o que, em sua opinião é simbólico. “Há uma construção da negritude brasileira que tem contribuições impressionantes. Esta é uma nação negra e isso precisa ser visto diariamente.”

Ariovaldo falou ainda sobre a utopia cristã: “A utopia do Deus cristão é justiça, uma realidade onde todos desfrutem igualmente de tudo que Deus é e que Deus doa”. Para que isso seja real, ele defendeu a igualdade entre todos. “Minha utopia é uma nação onde o racismo e desigualdade sejam superados de forma absoluta. Onde o acesso a direitos de todos os cidadãos e cidadãs seja de maneira absoluta, isso passa pelas cotas, por políticas afirmativas, recuperação de dívidas históricas para construirmos uma sociedade igual.”

Neste momento do país, no entanto ele reforçou a necessidade de lutar. “Temos que fazer resistência a um golpe de Estado, contra a humanidade. É um crime de lesa-humanidade o que está acontecendo no Brasil, orquestrado pela elite branca, que é retrógrada, subdesenvolvida, que não entende que quando não se tem nação para todo mundo, não se terá para ninguém.” Pastor Ariovaldo citou exemplos que demonstram os efeitos negativos do golpe na vida das pessoas: trabalhadores perderam direitos, mulheres são tratadas como objeto, a juventude negra sofre um genocídio, a escola está se transformando num antro de retrocessos, entre outros aspectos.

Ariovaldo falou ainda sobre a prisão do ex-presidente Lula, que ele visitou em Curitiba. “É uma perseguição política atroz, a perseguição que ele está sofrendo significa a perseguição a todos os trabalhadores.” Por isso, justificou: “Minha utopia é um sonho que exige de mim uma postura militante. Há utopias que exigem ação humana. A minha hoje exige militância.”

“Quem perde a utopia adoece”

(Foto: Thiago Lara / Divulgação Festival da Utopia)

Para Conceição Evaristo, “a utopia é o que nos move a andar” e “quem perde a utopia adoece”. Conceição apontou que qualquer voz subalternizada que se levante é exemplo de uma voz utópica. “Essas vozes que se levantam na reivindicação de seus direitos são vozes que o discurso oficial procurou neutralizar. De qualquer maneira, essas vozes encontram um modo de colocar as suas utopias, os seus desejos. O povo, nos momentos mais crucias, conseguem falar.”

A escritora que hoje vive em Maricá chamou a atenção de que muitas vezes o silêncio também é fala. “Podemos pensar o silêncio como estratégia para depois se colocar a voz”, explicou. Ela recorreu ao movimento da Capoeira para exemplificar como há o momento em que o corpo recua, mas não quer dizer que está saindo da luta, e sim que vai retornar ao jogo com mais potência.

“Dentro dessa circunstância que estamos vivendo, quando realmente percebemos a perda de direitos, a prisão de Lula, o impeachment de Dilma, e temos uma sensação de que não tem jeito, precisamos ficar atentos para não trocarmos a utopia por distopia.”

Conceição também falou sobre discursos que tentam nos fazer acreditar que as utopias individuais sejam mais válidas e potentes, dando base para a meritocracia. “Numa sociedade capitalista, as utopias individuais são levadas mais a sério do que as coletivas. A luta coletiva diante desse discurso fica esvaziada.”

A escritora afirmou que na sociedade que vivemos há sujeitos que vivem esse tempo distópico, sem esperança e objetivo, porque não têm condições de construir utopias nem no plano individual nem no coletivo. “Uma sociedade que não permite construir o sujeito utópico é assassina independente de matar.” É o que ocorre, de acordo com a palestrante, com mulheres negras que não podem sonhar com um futuro para seus filhos vítimas da violência.

Ela ainda falou sobre outro tempo distópico que seria o tempo da omissão. “Que pode começar pela irresponsabilidade política com o povo”. “Essa distopia não é uma distopia que o sujeito vive por não poder construir, é programada para criar a falta de esperança. Há determinados discursos políticos para se construir a falta de esperança. O discurso da corrupção criou em nós mesmos a crença de uma desonestidade política. Foi muito maléfico nesse sentido. Criou em grande parte da sociedade brasileira a distopia em relação à política.”

 

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